Buscar
  • A

Lago Tarumã

Num pedido de socorro, a sociedade viamonense clama: Salve o Lago Tarumã!


Cartão postal do município de Viamão/RS, localizado no coração da cidade, o lago foi por décadas cenário de diversas manifestações educacionais, culturais e esportivas.


Vivo na memória afetiva de quem aproveitava as tardes de sol com seus amores, numa roda de chimarrão com as amizades ou naquele churrasco com a família, agonizou por longos anos até que, por consequência do descaso da gestão pública com o meio ambiente, o Lago Tarumã foi e está sendo extremamente modificado.


O LAGO TARUMÃ AGONIZA

Os últimos anos não foram fáceis para o Lago Tarumã. A poluição de suas águas e a falta de manutenção da limpeza local afetaram o ecossistema, comprometendo o equilíbrio ambiental da região.


O primeiro sinal de que o lago exigia cuidados surgiu nos anos de 1990, quando num verão o lago ficou tomado por aguapés e outras macrófitas, numa rapidez não vista até então.


A administração da cidade não adotou medidas técnicas de manutenção permanente do lago e do entorno, tampouco garantiu subsídios e recursos efetivos.


A consequência foi a redução da biodiversidade de animais e a partir dos anos 2000, muitas espécies se tornaram raras, como é o caso, por exemplo, das tartarugas, jacarés, preás, diversos tipos de cobras e pássaros, etc.

Você pode se perguntar, como podem os aguapés, aquelas bonitas plantas aquáticas, fazerem tão mal ao lago?


É belo e natural a existência das macrófitas, entretanto, quando elas se multiplicam de forma acelerada, é sinal de que há algo errado nas águas e, normalmente, é poluição.


Veja alguns dos efeitos negativos dessa proliferação, chamada de eutrofização:

1 - Alteração do conjunto de seres vivos da região;

2 - Morte de peixes e outros organismos que vivem na água do lago;

3 - Degradação da qualidade da água;

5 - Produção de odores ruins;

6 - Procriação de larvas, mosquitos e outros vetores que prejudicam a saúde do meio ambiente do lago e seu entorno.


Todos os danos previstos, atingiram o Lago Tarumã e seu entorno.

Mesmo com os inúmeros alertas feitos por quem mora na região, e por quem admira a história do Lago Tarumã, o abandono do local virou marca registrada das gestões públicas do município de Viamão.

VIAMÃO, A VELHA CAPITAL

Para entender melhor a história do Lago Tarumã, é importante conhecer a história do município de Viamão, Rio Grande do Sul (RS).


As terras férteis de Viamão são propícias ao plantio e à pecuária. Inclusive, renderam o status de potência econômica ao sediar as primeiras estâncias de criação de gados do Estado e o comércio de suas carnes e couro.


As diversas fontes de água da cidade, contam com a Lagoa dos Patos e o Lago Guaíba, que proporcionam praias no Distrito de Itapuã, além de outras fontes, como lagos, lagoas, banhados, etc.


Seu ecossistema é de grande biodiversidade, como é o caso, por exemplo, do Parque Estadual de Itapuã, que abriga uma das últimas amostras dos ambientes originais da Região Metropolitana da capital gaúcha.


Tamanha riqueza ambiental sempre despertou o interesse ecológico e econômico, e rendeu até o título de capital do Estado do RS, de 1763 a 1773, ano da fundação do Porto dos Casais, atual Porto Alegre.


Mas, apesar de sua importância histórica, a velha capital parou no tempo e entrou em decadência política e econômica.


De um lado, houve uma forte ruralização do município, de outro lado, a urbanização se deu de forma desordenada, sem planejamento estratégico e sem preocupação com as questões ambientais.


Fatos esses, que se comprovam facilmente, em pesquisas acessíveis ao público. Entretanto, aqui, a história contada é sobre o Lago Tarumã, que de ponto turístico e cultural da cidade de Viamão, se transformou em ponto de preocupação entre seus admiradores, por conta do descaso do poder público.


LAGO TARUMÃ: 92 ANOS DE HISTÓRIA

As águas do Lago Tarumã não são parte das fontes naturais de Viamão, mas sim, criação do homem.


No entanto, ao contrário do que muitos pensam, não foi a construção de um lago artificial que deu vida à região, foi a existência de uma nascente natural, a diversidade de animais selvagens e uma rica mata nativa que deram origem ao Lago Tarumã.


Um visionário?


João Carlos Vieles Dias, proprietário de terras na região de Tarumã, construiu na década de 1930 uma barragem para conter um banhado natural que deu origem ao lago.


Idealizou um ambiente que proporcionasse qualidade de vida aos moradores e atraísse empreendimentos para a região.


Pensa em um homem visionário?! Noventa e dois anos atrás e ele já sabia que era possível a economia crescer em harmonia com a natureza.


Sua ideia era lotear as terras para atrair empreendimentos imobiliários, mas, também proporcionar um ambiente saudável para os moradores do bairro.

A barragem construída era alimentada por uma nascente natural (com águas que abrigavam peixes, jacarés, entre outros animais).


No entorno do lago, criou quadras esportivas para proporcionar áreas de lazer e jogos à comunidade.


Construiu piscinas comunitárias de tamanhos variados, que refrescavam toda a família, das crianças aos idosos (já que as águas do lago eram perigosas para banho e serviam apenas para a pesca).


O Lago Tarumã se tornou um importante ponto turístico de Viamão e lá aconteceram muitos eventos educativos, culturais e esportivos, como, por exemplo, campeonatos de lanchas e corridas de carros.


Também se tornou referência socioambiental na cidade, já que a natureza, com toda sua sabedoria, ocupou o espaço criando um ecossistema rico em biodiversidade de flora e fauna.


Então, por que um lugar com o histórico e potencial socioeconômico e ambiental como o do Lago Tarumã foi abandonado?

A verdade é que todos os esforços para manter o Lago Tarumã vivo, sempre foram comunitários.


Desde que o lago foi construído até os dias de hoje, foram os moradores da região e os admiradores do local que lutaram incansavelmente para salvar o seu meio ambiente.


O descaso do poder público é sempre o mesmo, entra gestor sai gestor e pouco ou nada faz pelo lago.


A morte do Lago Tarumã não foi por causas naturais, foi descaso.

Apesar do ecossistema do Lago Tarumã sinalizar a três décadas que estava em sofrimento, muito pouco foi feito por ele.


Na verdade, o descaso do Poder Público só aumentou ao longo dos anos e, a real ameaça de morte do lago, que por anos pedia por ações de preservação e revitalização, se concretizou no ano de 2022.


A prefeitura da cidade parou de desassorear a vala que recolhe o esgoto dessa região em 2015, fazendo com que ele escoasse direto para o lago.


Em dias de chuva forte, as águas da bacia norte de Viamão chegam até o bairro Tarumã e se misturam com o esgoto não tratado, entrando na vala assoreada e escoando no lago.


Os aguapés que já exigiam manutenção constante, passaram a crescer de forma descontrolada. Por muitos anos, os próprios moradores faziam as limpezas necessárias.


Porém, recentemente, os moradores compreenderam que essas limpezas eram soluções paliativas e insuficientes para salvar o Lago Tarumã.


Inúmeros pedidos de manutenção do espaço foram feitos à prefeitura, mas o descaso com o lago seguiu até o final do ano de 2021. Período em que a gestão municipal anunciou uma obra de revitalização, de gosto duvidoso.


Mas, antes de falar por que o projeto de revitalização apresentado é, no mínimo, duvidoso, é importante salientar que nenhum desses fatos passaram despercebidos pelos moradores do bairro Tarumã.


A comunidade local, se organizou para cobrar da prefeitura ações integradas e efetivas, que salvassem o lago da tragédia anunciada.


Resilientes, com muita resistência e persistência, os moradores da região buscaram possibilidades de diálogo com a Prefeitura, apresentaram diagnósticos técnicos e propuseram soluções sustentáveis para frear a crise ambiental do lago e seu entorno.


Entretanto, apesar dos esforços da comunidade, a administração do município escolheu um caminho que resultou no fim deste importante símbolo de Viamão.


Moradores do bairro Tarumã se organizam em Associação

Já na década de 1990, uma rede de solidariedade se formou entre os moradores do bairro Tarumã para, de forma voluntária, manterem o local limpo dos aguapés.


O envolvimento dos moradores com os problemas do Lago Tarumã crescia na mesma velocidade que os aguapés, e quanto mais descaso com a situação do lago, maior se tornava a mobilização pela recuperação do meio ambiente local.


Assim, sentiram a necessidade de se organizarem para cobrar ações efetivas do Poder Público e fundaram em novembro de 2019 a Associação de Moradores do Lago Tarumã (ALTA).


Desde então, promovem ações de sensibilização e educação ambiental, em especial de conservação e revitalização do ecossistema do lago e seu entorno.


REVITALIZAÇÃO DO LAGO TARUMÃ OU APAGAMENTO DA SUA HISTÓRIA?

No mês de fevereiro de 2022, a Prefeitura Municipal de Viamão deu início às obras de revitalização do Lago Tarumã.


Deveria ser um momento de alegria para os moradores do bairro Tarumã, tendo em vista que é uma demanda antiga de quem mora no entorno do lago.


Entretanto, o que se percebeu na prática foi um apagamento da história de 92 anos do Lago Tarumã.


As ações realizadas pela gestão pública, não incluíram os cuidados necessários com o manejo dos animais existentes no ecossistema do lago e, também, não cuidaram da preservação da mata nativa.


Árvores protegidas por lei foram derrubadas, junto com ninhos de diversas espécies de aves. O lago secou, antes mesmo da retirada do jacaré que morava nas suas águas. E, o que falar de outros animais que habitavam o lago e seu entorno?

Os moradores do entorno do lago, mesmo sendo os primeiros a sofrerem os impactos das mudanças causadas por obras desse nível, não foram comunicados do início das atividades e não encontraram espaço de diálogo com os responsáveis.


A comunidade do bairro Tarumã e os admiradores do lago, queriam sim a revitalização local, mas nunca quiseram que fosse a qualquer preço, muito menos que fosse às custas do meio ambiente.


Ainda não se sabe quanto tempo levará para ser concluída a obra da prefeitura municipal, mas uma coisa é certa: “nem tudo que reluz é ouro”.


Mesmo que seja entregue aos viamonenses um belo projeto de empreendedorismo, não será esquecido que, o projeto que fará muitos olhos brilharem, foi às custas da morte do Lago Tarumã.


Te convidamos a conhecer um pouco mais da história do Lago Tarumã, assistindo o documentário Salve o Lago Tarumã.

E AGORA? É POSSÍVEL PENSAR EM UM FUTURO MAIS SAUDÁVEL E SUSTENTÁVEL PARA O MUNICÍPIO DE VIAMÃO?

Viamão é um município de grande riqueza natural, com uma vasta diversidade ambiental, e com muitos pontos de interesse ecológico.


Nestes tempos, em que se discute a crise ambiental e emergência climática, provocadas pelas ações humanas, é necessário lançar olhares para regiões como a do município de Viamão.

A cidade de Viamão tem um grande potencial para desenvolver uma economia verde, que pensa em turismo, geração de renda, educação, entre outros, sem precisar desmatar e poluir para produzir.


É possível optar por um desenvolvimento sustentável, uma vez que o município ainda tem uma exuberante vida selvagem, com parques, reservas e refúgios que abrigam uma vasta diversidade da flora e fauna.


Lembrando que, Viamão conta com as águas do Guaíba, da Lagoa dos Patos, das nascentes do Arroio Dilúvio e do Fiúza. Isso tudo, sem esquecer das lindas praias de Itapuã, da represa da Lomba do Sabão e dos lagos e lagoas.


É possível sim, pensar em um futuro mais saudável e sustentável para o município de Viamão.


O que irá determinar esse futuro, são as escolhas que fazemos no presente.


Qual a sua escolha?







7 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo